Crônicas

Cultura popular

Ah, essa cultura popular do momento.

Você leu direito: cultura popular do momento. Eu faço essa distinção porque entendo que existe aquela que é eterna em nossa memória. E outra que é tão densa quanto fumaça de xícara de café.

Tem gente que prefere chamar esse tipo de manifestação cultural por outros termos mais pejorativos, alguns até derivados da própria palavra popular. Em respeito às leitoras e leitores que gentilmente se dão ao trabalho de ler o que escrevo não vou repetir as palavras usadas.

Deixo por conta da imaginação e conhecimento de cada um.

Retomando.

Eterno não precisa ser nada do alvorecer do século XX, por favor nem tanto. Mas é algo que remeta à memória sempre.

Por exemplo, eu aprecio chorinho e conheço expressões como “só falta combinar com os russos”. São manifestações que entendo serem eternas em nossa cultura. O “Carinhoso” é um dos exemplos mais bem acabados. Assino embaixo quando o Paulinho da Viola uma vez disse: experimente entrar em um bar lotado, abrir os braços e cantar “vem, vem, veeeem sentir o calor” que na hora surgirá o coro “dos lábios meus, a procura dos teus”. Isso é eterno.

Já algumas expressões, ditas a exaustão nos programas de televisão que são exibidos nas tardes de sábado ou domingo, vão desaparecer. Por quê? Não sei, mas só sei que é assim.

Mas por que estou com essa conversa toda? Para revelar minha total falta de intimidade com a cultura popular do momento. Verdade, verdadeira. A menor e mais simples expressão da moda para mim é como se fosse checheno clássico. Estou no extremo oposto.

Eu sou aquele cara que sabe que no “Sétimo selo”, do Bergman, tem três cenas da Morte jogando xadrez. Isso mesmo, três. Aquela que todo mundo conhece a imagem e mais duas. Da mesma forma que sei quais foram os efeitos da lava no corpo do Anakin Skywalker. Certo, concordo que a cada lançamento do Star Wars a saga volta a se inserir por um breve tempo na cultura popular do momento. Mas saber esse nível de detalhe que contei, desculpa, está além do popular do momento. E é onde me encontro.

Portanto, é assim que eu vejo as coisas: cultura popular é uma coisa, cultura popular do momento é outra. Pode ser esnobismo meu. Tenho um amigo que diz que é porque torço para o Fluminense. Exagero dele, eu acho. Mas a despeito do eventual esnobismo da parte eu simplesmente tenho pouca intimidade com a cultura popular do momento. É bom deixar isso claro.

Esse meu jeito de ser já me colocou em situação constrangedora algumas vezes.

Uma delas foi quando trabalhava no Jornal do Brasil. Sai cedo de casa e quando passei pela portaria do prédio onde eu morava o rapaz que lá trabalhava me disse: você viu, morreu João Paulo. Na mesma hora pensei: o papa, claro João Paulo II estava bem velhinho, como é de praxe entre os papas porque nenhum deles é escolhido na flor da idade.

Já ia embora para a redação quando, sei lá por que, perguntei ao bem informado porteiro do que o papa havia morrido. Ele me olhou e disse: foi em um acidente na Dutra. Na hora me espantei: ué nem sabia que Sua Santidade estava no Brasil? Acidente na via Dutra? Devia estar voltando do santuário Nacional em Aparecida. Mas como é que não escutei nada disso na redação?

Movido por uma inspiração repentina perguntei ao rapaz: mas de que João Paulo você está falando? Ai o garoto me olhou indignado e disse: João Paulo da dupla João Paulo e Daniel.

Juro, nunca tinha ouvido falar deles. Mas para não atrair para mim a ira popular fiz um ar sério e disse por fim: uma perda irreparável.

E toquei o pé para a redação.

Fernando Neves

Fernando Neves é carioca, nascido em 24 de setembro de 1965, na cidade do Rio de Janeiro, RJ, Brasil. Mora na cidade de São Paulo, continua Tricolor de Coração, é separado duas vezes e tem filhas gêmeas do segundo casamento. Jornalista profissional, desde os tempos no Colégio Pedro II sempre se interessou pelas letras, seja como leitor ávido seja como aprendiz de escritor. O jornalismo abriu a oportunidade de escrever e praticar mas não foi suficiente para seu desejo de escrever cada vez mais. As opções de forma são a mininovela e o conto. O estilo adotado pelo autor compreende um arco que inclui suspense, humor, conspiração e realismo fantástico. Semanalmente ele exercita sua paixão pela crônica e poesia publicando em seu instagram @fernandonevesescritor.

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